11.9.06

O AZAR DO ALCIDES

Morgana é uma mulher extremamente ciumenta, fica revirando os bolsos do marido para encontrar bilhetinho, se chega perto quando ele fala no celular; quer saber onde foi, onde não foi, gasta toda liturgia de uma esposa transtornada pelo ciúme. Até que Morgana tem suas razões. Alcides, o marido, desde jovem é metido a conquistador, magro, bem vestido, bigodinho a Clarck Gable, cabeleira cheia, típico galã dos anos 50. Tem seu fã-clube entre as coroas desesperadas. Certa vez Morgana, desconfiada, contratou um detetive. Audálio descobriu tudo: Alcides estava de caso com a viúva de um amigo de repartição que havia morrido atropelado por uma bicicleta. Depois do escândalo de Germana, Alcides morou três meses numa pensão perto da rodoviária, até que seus dois filhos pediram para reconciliar. Morgana aceitou a condição imposta pelo marido: nunca se referir sobre o caso de Dona Gerusa, a viúva consolada. Germana não agüenta, por via indireta, até por metáfora, relembra o caso quando quer fazer picuinhas com Alcides.

Hoje nosso amigo se aquietou. Como funcionário público criou os filhos com dificuldades, tem uma casa financiada, e conseguiu adquirir um terreno na praia de Tatuamunha onde construiu um cacete armado e plantou algumas árvores. É sua distração, sua curtição de fim de semana.

Dona Germana às vezes acompanha o marido nas visitas ao sítio como ele chama seu terreno de 15 x 30. Geralmente ele vai sozinho.

Semana passada, pela madrugada encheu o tanque do Fiat-96, reparou óleo, água, pneu, e viajou 90 minutos ouvindo cds de Nelson Gonçalves, pelo belíssimo litoral norte das Alagoas. Na Usina Santo Antônio entrou para estrada à beira mar cortando bucólicos lugarejos até sua bela e amada praia de Tatuamunha. Nesse pedaço de estrada Alcides se eleva, diz que o exuberante coqueiral beirando o mar azul-turquesa-esverdeado faz aquela região, a mais bela do universo. Para Alcides, o paraíso é ali.

Depois de tratar suas frutas, limpar o biombo, conversar com Gunga, o caseiro da região, Alcides, mergulhou em gostoso banho de mar nas águas mornas, entre pequenos recifes, piscinas naturais quase à beira-mar.

Às 14 horas, a fome apertou, hora da volta com parada na praia de Porto da Rua, onde comeu uma bela peixada, engolindo algumas talagadas de Pitu, sua cachaça preferida.

Eram três da tarde quando se arribou rumo à Maceió. Vontade de ficar, dormir em sua rede, olhando o céu estrelado de Tatuamunha, mas havia prometido levar a esposa a um churrasco noturno na casa de sua gorda cunhada. Ao passar pela praia de Paripueira ele sentiu a primeira fisgada de cólica, deu três tapas na barriga, olhou o relógio do carro, dava para chegar em tempo, antes de deflagrar sua diarréia crônica, que estava aparecendo com mais freqüência. O carrinho valente puxava 90 km por hora, enquanto as dores se achegavam mais rápidas. Arrependeu-se de ter se refestelado com a peixada ao coco. Ele tem rejeição, alergia a tudo que leva coco, estava pensando sobre isso quando doeu uma cólica aguda, começou a suar frio, e o corpo amolecer. Estava passando pela praia de Jacarecica, não agüentava mais a dor, suando, pálido. De repente percebeu uma propaganda de um motel: R$ 10,00 por uma hora. Não teve dúvida, puxou a direção para direita, pediu um apartamento. Alcides ao entrar foi tirando a bermuda e cueca. Quando se abaixou para desabotoar o tênis, não deu tempo; saiu aquele barulho de bufa, esparramou merda por todo canto, até na parede. Correu e fez o restante do serviço no vaso. Depois de mais de 30 minutos sentado no trono aliviou-se totalmente. O motel cobrou mais R$ 20,00 pela limpeza extra. Vendo o estrago, foi barato!

Pelo cúmulo da falta de sorte, quando Alcides saía distraidamente do motel, uma caminhonete correndo pela estrada bateu no pára-lama do seu carro que rodopiou e foi de encontro a uma mureta. Ele levou uma pancada na cabeça, foi socorrido pela Polícia, levado ao Pronto Socorro, onde foi medicado. Hoje está se recuperando, cheio de hematomas. O seguro vai pagar parte dos estragos do carro. Mas Alcides não consegue convencer a mulher da verdadeira história de sua entrada no motel. Morgana está uma fera. Recusou-se a ouvir o testemunho da administradora do motel, quer nem saber, vive perguntando quem é a nova rapariga, e promete que vai lhe dar uma surra. Como diz Tia Dulce, o azar nunca vem sozinho.

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