24.9.06

ROSINHA DE IPIOCA

Desde menina Rosana ajudava sua mãe Rosália na lavagem de roupas. Eram as lavadeiras preferidas dos veranistas e moradores da praia de Ipioca. Viviam numa casa de taipa no Alto, perto do local aonde nasceu o presidente Floriano Peixoto. Pela manhã Rosana amarrava a trouxa, descia para a entrega de roupas lavadas nas casas dos grã-finos que se divertiam na praia, ou em suas jangadas e lanchas aportadas nas piscinas naturais formadas por arrecifes dentro do mar verde-azulado no litoral norte alagoano.
Foi durante a Copa do Mundo de 1982. O Brasil ganhou da Argentina 3x1, a festa se prolongou noite adentro. Rosana com seus 16 anos, corpo de mulher, morena, vestido de chita, e a euforia de menina travessa, depois de algumas cervejas e muita festa, se entregou ao namorado nas areias mornas da praia tendo como teto apenas um milhão de estrelas cintilantes. Deu seu amor e sua virgindade a Mané das Cabras, amigo de infância e namorado.
Nove meses depois, na Maternidade Santa Mônica nasceu Rosa, uma menina rechonchuda, sorridente, com ar matreiro irradiando alegria.
Mané das Cabras era apelido do jovem Manoel da Silva por ter sido apanhado em flagrante com uma cabra. Quando Rosa nasceu ele já havia se arribado para o sul do país. Tocava violão e cantava, queria ser músico famoso da Rede Globo. Rosa teve em seu registro, pai desconhecido. Era mais uma na família de lavadeiras. Teve uma infância intensa, divertida, pelas praias e nos sítios de coqueiros da vizinhança. Jogava futebol com os meninos, subia em coqueiros como nenhum de seus amigos. Era conhecida em toda redondeza por sua sapequice, alegria e simpatia, lhe chamavam de Rosinha de Ipioca. Quando tomou corpo de mulher, aos 15 anos, chamava atenção por sua sensualidade. Tornou-se uma morena bonita, rosto arredondado, cabelos negros e crespos, nariz meio achatado, olhos amendoados, negros, de uma vivacidade incontrolável, e os lábios grossos pareciam constantemente molhados. Estudou no grupo escolar e teve a inclinação de ler romances, contos, poesias. Menina romântica se apaixonou por um belo rapaz filho de um rico comerciante. Gustavo, louro, olhos azuis contrastava com a beleza morena de Rosa. A atração entre os dois terminou num quarto da mansão de praia da família. Quando souberam do desvirginamento de uma menor de idade, os pais receosos mandaram o galeguinho do olho azul estudar em São Paulo. Foi a primeira decepção amorosa. Rosinha prometeu-se jamais se apaixonar.
Levou uma juventude livre, cuidou-se para não engravidar. Namoradeira, os homens se encantavam com seu o corpo, a beleza, a sabedoria na cama. Os sortudos que tiveram a ventura de passar uma noite em seus braços gravaram para sempre a desbragada noitada de amor. O frescor da boca de Rosa ficou impregnado na mente, no âmago de quem experimentou. Ninguém, jamais esqueceu um simples beijo de Rosinha de Ipioca.
Foi nessa época que Beto, um famoso arquiteto separou-se da mulher. Deixou-a com o filho no apartamento e foi morar com um amigo de infância. Bruno, solteirão, morava na praia de Ipioca para ter preservada sua intimidade de homossexual. Beto, apesar da amizade, nunca teve relacionamento sexual com Bruno, se respeitavam, eram amigos, muito amigos, quase irmãos.
Certa tarde de sábado Beto tomava cerveja com a namorada e convidados na varanda da casa. Teve uma alegre surpresa quando entrou aquela jovem com trouxa de roupa na cabeça. Rosa abriu a portinhola da frente sorrindo:
- Bruno!!!!!!Brunoca olha a roupa limpinha pra você sujar de novo!!!!
Seu sorriso enfeitiçou o novo morador. Beto acompanhou Rosa e ajudou a colocar a trouxa na cama. Rosinha ficou encantada com a gentileza daquele homem. Senhor educado, bonito, e gentil; uma raridade entre os homens conhecidos. O arquiteto acertou também, a lavagem de suas roupas.
Três semanas depois desse fato, Beto e Rosinha já dormiam juntos nos alvíssimos lençóis lavados e passados por Rosália e Rosana. Foi a melhor época da vida Beto. Toda manhã ele ia trabalhar no seu escritório de arquitetura no centro da cidade, só chegava à noite na casa de Ipioca, cansado, mas no fundo, na maior ansiedade de ter Rosa em seus braços. Vida encantadora, sem preconceitos, sem temores ou disputa de uma esposa impertinente e cobradora. Aliás, houve um bendito preconceito. Beto certa vez quis virar o disco, fazer o anal, mas Rosa tinha verdadeiro pavor, dava tudo que quisesse, menos isso. Ele respeitou sua opinião, sua determinação. Rosa percebeu frustração em Beto pela recusa. Na sexta-feira quando o arquiteto chegou do trabalho ávido em carinhos de seu amor, Rosa estava acompanhada de uma morena bonita tomando cerveja na varanda da casa. Apresentou Gal com um sorriso maroto. Quando pôde, cochichou no ouvido:
- Você não gosta de ir por trás? A Graça adora essa safadeza. Eu lhe trouxe de presente. Não me importo.
A partir desse dia Beto dormiu com as duas. Passou mais de um ano bígamo, aliás, ele dizia estar num paraíso, num sonho; interrompido quando viajou para um curso de quatro meses na França. Como quem vai pro ar perde o lugar, ao voltar, Rosinha havia se casado, já morava em Munique.
O romance de Rosa iniciou no dia da vitória do pentacampeonato depois do jogo Brasil 2 x 0 Alemanha. Alguns amigos foram para casa de um simpático alemão apaixonado por Alagoas, morador e curtidor da praia de Riacho Doce, era também festa de despedida, o alemão estava voltando para sua terra. Clemens quando foi apresentado à Rosinha não só ficou encantado, disse para si mesmo que aquela menina era o amor de sua vida, apesar da diferença de idade. Dois meses depois ela viajou de mala e cuia para Munique; casaram-se. Nesses últimos quatro anos Rosa teve uma filha, e passa dois ou três meses por ano em Maceió matando a saudade da terra, da mãe e da avó que hoje moram num confortável apartamento na Jatiúca.
O destino fez com que o alemão recentemente comprasse uma enorme casa exposta à venda por um decadente comerciante à beira-mar em Ipioca. A mesma mansão do desvirginamento está passando por reformas. A família Clemens virá assistir a Copa do Mundo da Alemanha pela televisão e curtir a praia de Ipioca em sua nova casa. O projeto da reforma e a administração da obra foram entregues a um amigo de Clemens, padrinho da filha Rose e ex-amor de Rosa, Beto, o arquiteto, que semana passada no Banco do Brasil me contou essa bonita história dos amores de Rosinha de Ipioca.

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