A MORENA DO REBOQUE
Pedrão nasceu na cidade de Maragogi. Criou-se correndo pelas praias, trepando nos coqueiros e mergulhando no mar azul esverdeado. Um dia, seu pai resolveu morar na capital onde os três filhos teriam melhores oportunidades de estudo. No início foi um drama morar na casa apertada no bairro do Jacintinho, onde Seu Manoel, o pai, montou uma barraca de frutas e com ela conseguiu com muita dificuldade educar os filhos.
Pedrão quando terminou a Faculdade de Engenharia com 20 anos tinha 1:86 metros de altura, jogava voleibol pela Fênix, o clube mais sofisticado e rico do estado. Na Fênix conheceu Cecília. Foi uma paixão repentina, e tornou-se mais forte devido à proibição do namoro pela família. Descobriram que Pedrão era filho de um barraqueiro no Jacintinho.
Cecília engravidou, não houve jeito, a família além de rica era religiosa e preconceituosa. Casaram-se com separação de bens. Pedrão teve que assinar muitos papéis para entrar na família de 400 anos.
Deram-lhe um emprego, ótimo salário, na construtora do grupo. Assim nosso amigo viveu por mais de 25 anos. Ganhava bem, trabalhava mais ainda, sempre teve excelente produtividade como engenheiro. Nunca a família sequer cogitou em colocá-lo como sócio. A sogra e alguns cunhados o esnobavam por sua origem humilde. No início do casamento ainda desabafava com a mulher, mas quando Cecília tornou-se uma mulher madura, acabou sua doçura, só pensava em dinheiro e acumular imóveis. Durante esse período ele teve algumas brigas, duas vezes saiu de casa. As brigas eram sempre por dinheiro e posses. Cecília passava na cara a diferença das origens.
Os dois filhos cresceram, a mais velha é bióloga e vive no Canadá estudando e dando para todo mundo, tem uma vida libertina para o desgosto dos pais. Mesmo assim Aninha é apegada a Pedrão que nunca negou apoio à filha.
No verão do ano passado, depois de uma discussão com a ranzinza Cecília, Pedrão pegou seu belo Corolla, foi rodar sem rumo pelo litoral como gostava de fazer para espairecer. De repente estava chegando
“-Moço olhe o que você fez com meu reboque e meus coquinhos...”
Pedrão se prontificou. Pagava tudo, não queria briga, principalmente com ela que foi tão afável. Ele pensava que ia surgir alguém do carro com um revólver, ou um cacete para brigar e saiu aquela mulher bem humorada, parecendo estar de bem com a vida, levando até na brincadeira aquele acidente em que perdeu seu reboque. Depois de calcular os prejuízos, Pedrão assinou o cheque na hora. E foi comer sua lagosta. Ao pedir a primeira cerveja, notou que a morena do reboque sentou-se numa mesa com uma amiga. Momentos depois Pedrão foi conversar com as duas. Divertiu-se, deu gargalhadas como nunca mais tinha feito. A alegre morena, Laura, era viúva sem filho. Seu marido havia deixado um sítio de coqueiros, de onde tirava seu sustento.
Passaram a tarde conversando e por conta da bebida e empatia entre os dois, rolou uma paquera. À noite, meio bêbados se hospedaram no Hotel Salinas, onde fizeram amor até adormecer.
Semana passada Pedrão contou-me sua história. Hoje vive com Laurinha, a paixão de sua vida. Largou a mulher, o bom emprego, o corolla. Vive no sítio em Maragogi ajudando a mulher na administração. Acorda com os galos cantando e com os carinhos de sua amada. Pela manhã lê algum livro, entra na internet, assiste o noticiário na TV. Mais tarde caminha na praia, toma um banho de mar, come uma moqueca preparada pela mulher amada. À noite vai conversar e escutar histórias com os moradores e pescadores do povoado, tomando talagadas de cachaça até deitar-se nos braços da amada.
Só agora descobriu a felicidade. Ele que tanto trabalhou, tentou se realizar com dinheiro, foi escravo do poder e da riqueza, descobriu que para felicidade basta tão pouco. Apenas um sítio de coqueiros, uma praia de areia branca, um mar que não tem tamanho, o dia para vadiar, e o amor da morena do reboque.



