26.10.06

A GUERRA DO TROTTOIR

Segundo o Aurélio, “trottoir” (trotoar) significa exercer a prostituição perambulando pelas calçadas. Há alguns anos atrás em Maceió houve uma polêmica, uma grande celeuma, uma verdadeira guerra à cerca da ocupação das calçadas em frente aos hotéis da Pajuçara. Não me recordo o ano, mas tenho certeza que o fato se deu ainda no governo da prefeita Kátia Born.
As prostitutas tomaram conta das calçadas dos hotéis da belíssima praia de Pajuçara, (onde o mar beija as areias com mais alma e mais amor, segundo o poeta Aldemar Paiva). O ponto era tão bom que os travestis invadiram uma fatia da calçada. Foi a gota dágua para que os hoteleiros da orla iniciassem a briga. Tentaram proibir o “trottoir” em frente a seus estabelecimentos alegando que estava afastando os turistas. As mariposas do amor rebateram alegando que os turistas achavam ótimo as meninas tão perto, às suas mãos; o que afastava turista eram esses travecos, a invasão bárbara dessas bichas nojentas em seus pontos de faturamento. Os travestis diziam ter os mesmos direitos das prostitutas, aliás, se diziam também mulheres e assim exigiam ser tratados. Por conta disso foi deflagrada a “Guerra do Trottoir.” Geralmente uma guerra divide duas partes, a Guerra do Trottoir, tinham três partes antagônicas, brigando entre si: Os hoteleiros, as putas e as bichas.
Toda noite uma confusão, os hoteleiros chamavam a polícia. Uma briga entre uma rapariga e um traveco ficou famosa. Saíram puxando cabelos e xingando do Hotel do Sol até a esquina do CRB. Os jornais deram cobertura para a guerra instalada a partir das 18 horas nas calçadas da Pajuçara.
O líder dos travestis, de nome Jaciara, parecia uma bela mulher com seu nariz grego, lábios carnudos, vestindo uma saia justa que escondia sua identidade sexual foi bater no PROCOM, na OAB, nos Direitos Humanos, procurando resolver a questão. O trottoir da Praia da Pajuçara estava caminhando para conseqüências mais graves. Por conta disso foi determinado por alguma autoridade competente que a paz seria resolvida em uma reunião com todas as partes presentes.
A reunião da Comissão de Paz foi realizada na OAB com a participação da Polícia Militar, OAB, Direitos Humanos, Câmara de Vereadores, Prefeitura, hoteleiros, e uma comissão das quengas e dos perobos.
A reunião foi iniciada, cada representante deu sua versão. O que mais incomodava às marafonas era a ocupação de seus pontos pelos travecos. Os viados se achavam com direitos iguais às mulheres. Os hoteleiros exigiam todas as tribos longe de seus hotéis. Depois de mais quatro dias de debates, fala de advogados, pedidos de políticos, muita pressão de simpatizantes, ficou determinada uma divisão de área, um loteamento para o trottoir noturno. Os travestis ocupavam seus pontos na Avenida da Paz, as mariposas ficavam na Pajuçara, no outro lado da rua no início do calçadão perto do estacionamento que serve à noite para namoro, para casais se amarem economizando a grana do motel. Houve uma reação das bichas, eles reivindicaram a construção de um estacionamento na Avenida da Paz destinado ao amor igual àquele da praia da Pajuçara. Jaciara em seu discurso final aceitou as determinações do Conselho de Paz com uma reivindicação:
“Para o bem de todas, pela paz, nós ficamos na Avenida da Paz. Pedimos apenas que a Prefeita de Maceió mande construir um estacionamento. Nem todos podem pagar motel. Faz-se necessário esse equipamento urbano, a construção de um local de trabalho, queremos um “chupódromo” para Avenida igual ao da Pajuçara.” Finalizou o traveco batizando adequadamente o estacionamento do amor.
Embora não tenha sido atendida a reivindicação dos travestis, as partes têm obedecido às cotas dos locais determinados.
Recentemente as meninas do trottoir nas imediações do CRB procuraram um conhecido vereador solicitando que o Prefeito Cícero Almeida apague algumas lâmpadas do estacionamento, pois na belíssima reurbanização da orla da Pajuçara, as noites foram contempladas com um banho de iluminação, inclusive no local de trabalho das mariposas, o chupódromo, como bem definiu o boiola, o que vem atrapalhando os serviços discretos prestados pelas meninas. Não por elas, mas pelos clientes que têm acanhamento ou receio de serem identificados pelas chapas dos carros.
O vereador sugeriu à Prefeitura colocar um interruptor, pois duas lâmpadas já foram devidamente quebradas por pedras anônimas.

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